terça-feira, 14 de março de 2017

RETROCESSO CIVILIZACIONAL

As escolhas destes dias cinzentos sujam, cada vez mais, as grandes memórias anteriores a Deus; as coisas que a gene diz:

1. Eles abrem as televisões: o ecrã enche-se de lixo e ruído. O cartel da publicidade, entre todos os canais, aparece em todo o lado, sufocante, insistindo nos carros, nas comidas e nos zelos em tudo o que parece estúpido e é tratado como Alice no País das Maravilhas. Ou a rapariga do Trivago que nunca mais despiu a camisinha azul-qualquer-coisa. À hora da publicidade as urgências hospitalares enchem-se ao máximo: são os de meia idade que aguentaram três horas de televisão, viram duas de publicidade e já não esperavam mais tortura. Já contei meias horas de publicidade. Em geral, o som está sempre puxado até à ponta das nossas pobres orelhas.
As novelas portuguesas (porque as compradas ao Brasil perderam toda a dignidade) mostram a grande intuição interpretativa dos nossos actores. Era melhor gastar aquele dinheiro em cinema. Seja como for, as novelas têm qualidades de imagem, rigor formal, interpretação. Perdem quase todas as virtudes por se encharcarem de musiquinhas e canções, cançonetas, palermices intercalares. Os Realizadores ainda não perceberam a importância do silêncio e das falas sem musica em painel. Esticam Guionistas e eles esticam o argumento, salpicando tudo de pretensas lições de moral. O mal impera, truques, maldades, amores em estado indistinto. Nunca aprenderam a fingir sexo na cama sem começar por despir primeiro as camisolas e nunca tocam nas calças e nunca mais perceberam a caricatura daquilo. Nem mesmo alcançaram os modos de sugerir os corpos nus sem fazer mal a ninguém. Há disso sem um pico de amoralidade; mas esta simetria (em baixo) não se parece com nada. Ou melhor talvez se pareça com uma despedida antes do Haraquiri.


Há disfarces que são mais pornográficos. Exemplo: tiram a camisa (eles) e ficam em tronco nu. Elas tiram a camisa e ficam em soutien. Começam assim e nunca mais se vê cair a ganga ou ele puxar o soutien com um mínimo de ternura. Fungam. Fazem caretas nos primeiros planos. E, noutros casos, metem-se num corredor meio escuro, à americana: ela encosta-se à parede e ele a ela, O homem simula que levanta sem esforço a rapariga para que ela levante a coxa visível e o suficiente para que isso nos faça intuir o espaço aberto entre essa anatomia e a outra, de pé. 
De política, o horror está no tamanho do último minuto, quando o Mendes é avisado que já só tem dez segundos. 

2. Em Futebol há, nos canais todos, umas dezenas de "marretas" que se sabem de futebol não demonstram: berram todos ao mesmo tempo e não abordam uma única questão de fundo, de ética no desporto, de talento e técnica, de espírito de entrosamento e de corte aos embates, rasteiras, pontapés nas canelas, tudo o que se paga, no mínimo, por uns milhões de euros. O Futebol é um dos maiores embustes contra a civilização, amoral, patético, caríssimo, sem tecnologia de julgamento, imitando no cume, entre marcas no peito e nas costas, essa governação esquisita que temos tido à medida que o 25 de Abril se desvanece.

Seguiremos, um dia, com outros temas  para educar o olhar e aperfeiçoar a percepção do país que fomos fazendo.
                                                                               
3. A última vez que fui ao cinema, convenci-me  de que "Interestelar" era obra de mérito. Mas faltava-lhe aquele credo do esplendoroso cinema de Tarkovsky ( "Solaris" e os outros) visto ainda em pequenos estúdios mas tecnicamente aceitáveis. Resolvi respeitar o "Interestelar" e meti.me ao acaso numa das caixas de fósforos do Amoreiras, tendo sido imediatamente cercado de palavrões de um jovem público, namorados beijando-se sem fogo, pacotes de pipocas sobre os joelhos. E um som aterrador saindo das colunas, em sincronia com os filmes publicitários. Quando o filme começou (acção americana) um carro era perseguido pela polícia. O ruído atroava a ossada dos ouvidos. Protegi os tímpanos com um dispositivo comprado na farmácia e tentei seguir aquela fabulosa abertura. Por estranho que pareça o roncar dos pneus no asfalto parecia acompanhado de pedrinhas a estalar, expelidas para fora da estrada sob o efeito da velocidade  a par do uivar da borracha. A uma paragem do trânsito todo, o estalar das pedras continuava a ouvir-se, coisa que procurei perceber, entre as vozes das personagens enquanto esperavam a abertura dos sinais. Não era nada que saltasse do ecrã. Eram as dentaduras de cerca de cem espectadores, pacote ao peito, retirando nervosamente pipocas do interior e trincando-as como ratos gigantes. Assim foi durante mesmo todo o filme, no qual  foram destruídos cerca de vinte viaturas e se assistiu a um assassinato na noite de Los Angeles.

4. No último concerto que ouvi, ao ar livre, no anfiteatro da Gulbenkian, ainda não havia pipocas e a instituição não toleraria esse bizarro vício perante uma orquestra estrangeira, de grande gabarito, a tocar Beethoven. Quando o espectáculo terminou e as pessoas se retiraram lentamente, fiquei um pouco para trás a olhar alguns cuidados do programa. Quando decidi levantar a cabeça e iniciar a marcha, algo me assaltou o olhar revirado: todas as bancadas, e parte do próprio chão fronteiro a elas, estavam completamente coalhadas de cascas de rebuçados e chocolates, livretes do programa, jornais (inclusive), lenços de papel, amarrotados. Na Gulbenkian? Da classe média alta?


5. Nas ruas, às seis horas, o trânsito quase pára, e mais de metade dos carros meio estacionados apitam como se o mundo estivesse para acabar. Uma senhora fora atropelada junto da rua das Pretas e ouvia-se já a gritaria da sirene do INEM. Nessa mesma noite, li no outro dia, no "Correio da Manhã", que houve entretanto dez crimes, mais uma morte de mulher, rachada a machado pelo marido, numa casa da rua das Colónias. O mesmo jornal documentava o desaparecimento de uma menina de 13 anos, certamente por influência das "redes sociais". Os pais haviam encontrado fotografias de um rapaz e bilhetes amarrotados. Um deles indicava certo café de Braga, 10 horas, dia 15. Uma tal Maria Joana, que trabalhava no interior, perto de Viseu, fora presa no casebre que habitava com o amante e onde tivera uma filha, na altura ainda bébé. No outro dia, os jornais falavam do caso com grande alarde, pois constara que a menina bebé desaparecera, havendo sulcos de sangue, e muito em breve apareceu numa grande caixa de lixo, aos bocados, o corpo da pobre criança.

6. Fora primeiro ministro e acabara, derrotado, nas ruas de uma remota cidade europeia. Tinha amigos em  Portugal e com eles trocou favores: anos depois os amigos foram acusados de lavagem de dinheiro e de transferências de grandes fortunas para empresas que, por sua vez, estavam sendo manipuladas e a caducar perante um assalto sistemático de Grandes Grupos da União. A maior Empresa de Transmissões, vai sendo abocanhada por outras, estrangeiras. Neste vórtice de milhões veio a descobrir-se um rol de 27 pessoas ligadas ao empresariado e à Finança, entre políticos e gestores de bancos falidos. Dez mil milhões de euros, num milhar de operações, haviam sido encaminhados de Lisboa para a Suiça, além de outros lugares muito dados a burlas deste tipo, para diversos offshores.

7. A União Europeia resultou de propostas e importantes reflexões de personalidades de grande relevo. Infelizmente, os executores desse Projecto começaram a borbulhar no espaço destas nações e basearam as suas propostas num errático montão de tratados contraditórios entre si relevados perante as anteriores perspectivas de um grande espaço, inter-relacionado com o mundo, aberto para si próprio, solidário no melhor entendimento da modernidade.


                                                            euromania

Mas a grandeza das construções sediadas em Bruxelas imitam um futuro modelar enquanto os seus viventes parlamentares, comissários, presidentes e muitos outros, ficam boiando em dinheiro e retórica  sem  abrir  nem  reciclar  os tratados, impondo aos países da União, com pouco respeito pelos seus orgãos de soberania, regras e regras de aperto, de contracção, em nome de um amanhã afinal anémico, contraditório, prisioneiro das caturrices de países enfadonhos, ricos, a lembrar o belicismo dos anos 30 a 40 do século XX. Assim, a Inglaterra retira-se da organização, num brexit que mais parece uma batalha de funconários, parlamentos a abarrotar, dois anos de trabalhos e talvez uma década para tudo isso acabar, enquanto, pelo caminho, outras vontades de libertação do cerco começarão a tentar lançar clareza à Comissão Europeia, aos snobes países do Norte, ao Parlamento, à centralizadora Alemanha, a abarrotar de euros, refugiados e regras após regras.

8.  Portugal, bem vista  a figuração da geografia, é centro do mundo, é  "rosto da Europa". Sofre de muitos males que invadem os territórios povoados, ou muito povoados, enche-se de lixos e, embora também polua o oceano, esquece-se das antigas descobertas marítimas, perdeu barcos, não quer ou nem pode dedicar-se a uma relação profunda com o estudo científico das profundidades marítimas, nem sequer explorar o eventual petróleo existente na área da sua plataforma oceânica. Nisso talvez tenha feito bem, como não construindo centrais nucleares. Acompanha os outros em produzir lixos assassinos, como estas imagens indiciam. No mar e em terra.

um dia  saberemos desbravar estas notas e avançar para uma civilização limpa


A DISSOLVIDA ORDEM DAS SOCIEDADES

                                                           pintura de Paula Rito


    Envelheço a pensar nos serviços prestados e no equívoco que me envolveu o espaço das ideias e dos sonhos, atrasos, pluralidade nunca reconhecida sem favores, a pobreza dos meios entre olhares de ileteracia e as pausas entre rostos esplendorosos, inúteis contudo, escorrendo, patéticos, na sexualidade mal aprendida, tendencialmente sub-cultural.
      O tempo em que se  lia Sartre ou Camus, comoventes aprendizagens do sentido existencial de tudo em volta, a despeito das sombrias horas de equívoco, a náusea ou o absurdo, polos decisivos  da nossa alma assombrosa e assombrada, perdas a sangrar nas derrocadas irremediáveis, das mortes inúteis, de um cada vez maior retrocesso do saber e do lado maravilhoso de milhões  de coisas descobertas, de obras eleitas, de cidades soberbas que o tempo e uma demência geral cada vez maior foram arruinando e desfazendo sob a cegueira de novos raivas, pela multiplicação dos deuses e das vagas criminais cujo avanço misturava finanças de suborno com produções poluentes, apesar do esforço da ciência médica  abalada pelas lamas entre lixos ou apodrecimentos  talvez invencíveis, num planeta cuja beleza e sentido vital haviam  alcançado o espanto dos povos modernos ao descobrirem que a doença dos grandes espaços era sobretudo detonada pela voracidade de uma civilização global incapaz de se entender com as escalas ou as grandezas mal desenhadas para o alongamento pacífico dessa fábula genética e dos entrosamentos futuristas da biologia sem igual nas molduras mais remotas, parecendo parte de sistemas sem falhas. 
           Inventou-se Deus para explicar tudo, numa tentativa de dar sentido ao que nos escapava e consolidar o Universo, essa infinita aparência sem dimensão racional e um quadro plausível ao nosso entendimento, solitários de biliões de lugares distantes da Terra em contagens como biliões de anos luz, toda a impossibilidade de viajar em nome de novos achamentos e relações capazes de densificarem os vazios de tais distâncias entre tudo e nada ao nível da nossa percepção do visível, num espaço capaz de conter a impossibilidade das nossas narrativas.

        Aqui me encontro sem me saber de forma razoávelmente apreensível, apesar da morte e do nada atravessado por novos nascimentos, seres à primeira vista confiáveis, abertos à paixão, e contudo submetidos em pouco tempo aos perigos do mais rasteiro dos maniqueismos ou fixando-se em novos destinos  naquela que será uma noite infundada e total.
            Penso: porquê e para quê? Olho em volta e o excesso das fraudes sufocam povos inteiros, criando oásis de maravilha, algo que parece conceder a felicidade a alguns homens  e que, após meia dúzia de séculos, se tornarão silêncio de pó e restos sem nexo. Hoje, na odiosa geminação do mundo global, a paz apaga-se na histeria das multidões e nas centenas de conflitos armados que desmembram a beleza do passado e queimam o sucesso técnico dos novos sucessos. Milhões de pessoas reduzidas à miséria e ao desespero migram entre mares e terras, após chacinas, carregando a saudade das suas origens, no apelo ilusório do lugar para ricos e à saúde dos velhos entretanto meio cegos, meio mortos, entre valores imperiais acerca dos quais me faltam palavras.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

O MUNDO DAS HORAS PERDIDAS


transfiguração de um
imperador da Roma antiga


UM ESTRANHO À BOCA DAS URNAS


Este segundo milénio abriu o calendário de forma enviesada e fracturando-se em várias dezenas de guerras que nem sequer simulam a última, dita mundial. Depois das querelas dos israelitas, implantando um país de ponta a ponta, por força de antigas nações coloniais, na insanidade de expulsar ou irradicar de si mesmos os palestinianos, uma falsa culpa de todos em todos foi implantando na faixa dos pesadelos um resto de descolonizações brutais, sem memória nem ética, enquanto os EUA, secretamente ou por feio abuso, perfilhavam negócios a leste, no declínio da guerra fria, mostrando mesmo na televisão grandes carros  transportando caixas com supostas armas nucleares, ao longe, no Iraque, supostamente em obscura traição de Hussein contra um Ocidente de mistura laica e religiosa. O presidente Bush apelou aos aliados e, caindo ou não na armadilha, decidiu uma guerra contra o Iraque, sem rei nem roque, cuja verdadeira finalidade não foi encontrada nem alguma pedagogia de alianças soube esboçar. Recuou erraticamente, bebendo água do Luso e repartindo o esforço, ao matar o ditador Saddam e procurar oferecer ao país os soldados iraquianos treinados militarmente.

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Um dia, bem tarde, com guerra na Síria e em parte do Médio Oriente, o primeiro presidente afro-americano dos EUA, Obama, após um trabalho ponderado, em geral bem compreendido, o seu mandato chegou ao fim sob o "atentado" de um candidato da riqueza e da direita sem fígados, Donald Trump. O mundo globalizado, cheio de sombras, lixos, tecnologias cada vez mais sem medida, encheu-se de carnavais televisivos e outros, durante as eleições primárias nos EUA: aquele Trump poderia encarnar um cowboy dos melhores tempos, mas fazia as suas viagens berrando insultos: que era preciso acabar com tudo o que se excedera na corrupção, terminar com as vagas de emigrantes, migrantes daqui e dali, expulsar os ilegais, fechar a entrada do país a todos os muçulmanos, gente e gente que transportava terroristas entre si, nunca mais a tolerância de misturas sem princípio, criar muros face ao México .
O homem de cabelo dourado, já príncipe da América, desatou então (aí o temos) a decretar tudo, montes de ideias radicais, assinando com uma caneta de feltro, aos bicos, e mostrando tudo de frente para a televisão. Nada disso está legalizado pelas estruturas competentes, mas já os aeroportos se baralham e as famílias separadas em viagem temem pelo seu futuro, a Europa sem norte, perdida de si e da cultura que a definia. O mundo incha de efeitos maléficos, não há cirurgia que o salve ou redima dos erros da esplendorosa globalização das primeiras décadas do século XXI.
Que o gelo deslizante nos socorra e a infecção se contraia.


domingo, 3 de julho de 2016

AS VOZES EQUIVOCADAS


A actual Europa é um cerco de sombras, esquecidos os tratados que nem sequer eram belíssimos, perdido o sentido de coesão e solidariedade, envolta nas menos animadores REGRAS que já conheceu na contemporaneidade. Esta Europa tem uma cinta de norte, de países que desdenham os chamados países do sul. Inventada a regra da «austeridade», os países que soçobraram à péssima arquitectura do euro, despojados de moeda própria, vítimas de emigrações hemorrágicas, foram convidados a financiar-se com empréstimos supra-protegidos e sob tutela do FMI. 
Portugal tinha vivido grandes transformações e acreditou nas promessas de solidariedade e de sucesso entre  as instituições faraónicas da União Europeia. O ajustamento construtivo de meios estruturais capazes de fomentarem um verdadeiro desenvolvimento sobrecarregou o país em vias estruturantes, obras rodoviárias, equipamentos escolares, equipamentos sociais e outros, suportes dedicados ao turismo crescente. A certa altura, ainda sem retornos, a bancarrota aproximou-se bem como as promessas incentivadores da Europa. A crise também nos foi arremessada dos Estados Unidos da América, os impérios bancários tremiam e o dinheiro desaparecia da circulação.
O esplendor da Europa, anos antes, desapareceu sob nuvens pesadas e sujas, as guerras a leste do Médio Oriente, novas guerras santas e a ideia sacra de arrasar toda a cultura ocidental, levando o genocídio às populações cristãs, geradas em nome de Cristo e atravessando os mares, em Cruzadas, para demolir a cultura islâmica.
Que faz a Europa hoje, cristalizando os tratados e  absorvendo, fora dos seus próprios orgãos, o comando, o poder? Vimos, cada vez mais, a Alemanha comandar reuniões, fomentar ordens, alegar poderes e ideias do lado da Comissão, sem rei nem roque. Portugal teve de pedir um resgate e foi comandado por um primeiro ministro que seguiu à letra (ou letras maiúsculas) a ordem da austeridade, cortando grandes percentagens de reformas, aumentando taxas e impostos, assim gerindo o déficit que, em boa verdade, nunca chegou aonde devia. Os cortes temporários nos rendimentos do trabalho ou de compensação pelas reformas, são agora nomeados como REFORMAS. Nem um gabinete mudou, nem uma rede estrutural se instalou, nem os bancos foram devidamente supervisionados. E nos últimos tempos, após quatro anos, ainda o governo cessante teve de derramar milhões de euros para o Banif, entre outros buracos e securas dos nossos visitantes tecnocratas. Acabou o resgate, houve sinais de confiança, mas tudo perdeu estabilidade porque o não reformismo do governo terminado em 2015, sem legar ao que se seguiu uma verdadeira malha de módulos de positividade produtiva. Mas as coisas, apesar das franjas aniquiladas, alcançou entusiasmo e um novo governo viu o seu orçamento  aprovado, um governo à esquerda, com o PS e o Bloco de Esquerda (pela primeira vez assim, um passo assim). Sonharam-se plataformas de esperança e estão bem perto de situar o déficit abaixo dos 3% (2/2)%. Apesar disso, insistem os alemães, deve ser menos, tem de ser menos, quando legalmente até poderia ser 2,8%.
Ora este senhor que vemos em cima e em baixo é parte de muitas tensões e pressões no âmbito da Europa, talvez dentro e um pouco abandonada pelo Reino Unido. É ministro das finanças da Alemanha e não pára de aparecer em todos os cantos, sendo filmado e mostrado-se a dizer coisas indescritíveis sobre Portugal, que emagreceu e emigrou, desde 2011 até 2o15, "sob as ordens da Troika" e sabe-se lá por "quem mais". O sr Ministro Wolfgang Schäuble, deixou de gostar de Portugal. Embirrou porventura com a mudança de governo e com a mudança de critérios. E desatou a pressionar com bocas de corredor. Quase toda a gente diz que ele não devia portar-se assim. Podia criar um gabinete de audiência (jornais, políticos visados, estudos em curso, ordens a pensar, mesmo que não fossem do seu pelouro). Lastima-se o que lhe aconteceu, uma vida difícil, mas não deixa de ser patético ouvi-lo desmentir, carregar, inclinando o tronco para a frente sobre a cadeira de rodas.













SCHÄUBLE DIZ APENAS QUE PORTUGAL NÃO TEM 
CONTROLO E POR ISSO TEM DE PEDIR NOVO RESGATE
SABERÁ ELE TRADUZIR ALEMÃO PARA PORTUGUÊS?

domingo, 26 de junho de 2016

A BREXIT MANIA ENTRE PERDAS

                             A BREXIT MANIA ENTRE PERDAS


Andava toda a gente a remoer as decisões europeias e já a fina flor do Reino Unido lançava luz sobre uma certa promessa inicialmente feita pelo Primeiro Ministro: tratava-se do mais simples referendo através do qual os nobres ingleses (todos) iriam dizer se queriam ou não permanecer na União Europeia.
Houve forte ruído em torno disso mas o Parlamento do Reino Unido lançava luz sobre a promessa inicialmente feita pelo Primeiro Ministro, David Cameron: o que parecia ao simples cidadão, e apesar dos apertos de Bruxelas, a questão não parecia assim tão simples, mais ou menos como a dentada na maçã. Há dentes que sangram após essa atitude natural.
Um só dia depois do referendo, documentado nas televisões como uma bela lição de civismo, incluindo esse facto patético de dois velhos terem morrido após o acto de votar. A grandeza desta tragédia. Pois sim: eles haviam ouvido os debates, gente rangendo da pior maneira contra outra gente, campanha absurda que muitos terá aterrorizado: os tais velhotes, pelo menos. É que, durante a votação e a contagem dos votos, o imaginário dos velhos ainda vivos deve ter-se encantado com os cenários, os grandes espaços cobertos de mesas lado a lado, rapazes e raparigas lado a lado, trabalhando os montes de papéis e outros, em fila indiana, passando as urnas brancas e pretas de mãos em mãos. Tais imagens abrandavam o nosso medo de estrangeiros e mostravam uma peça engendrada com requinte, como se no fim não houvesse senão um empate e um abraço entre todos.
Contra as bizarras sondagens inglesas (já se viu isso em eleições gerais), a contagem deu a vitória à saída da União Europeia, coisa que anda no ar desde as ofensas aos gregos em reuniões de trabalho.
Agora todos, da esquerda à direita, andam por essa Europa fora a fazer ameaças de idênticos referendos: em Portugal, uma importante figura do Bloco de Esquerda gritou que faria um referendo se Bruxelas insistisse em manter sanções contra este país por décimas acima no déficit decretado.
Ora se este rapariga, enrouquecendo, fez esta ameaça de um cantinho partidário, bem se pode imaginar o que vão ser as negociações para consolidar a saída do Reino Unido, horas e horas de senhores cinzentos barafustando não tanto a saída mas a reconquista de um império já inexistente, ou seja, negócios retomados noutra perspectiva, com mais liberdade e menos pressão burocrática. Talvez não passe de uma utopia mas os ingleses sabem tratar de si.
Pelo contrário, o que restará agora da Europa deve revêr-se num trato mais coeso e menos amarrado a regras cruzadas. Porque este espaço e 27 países não se pode tornar numa fortaleza medieval duríssima, flagelando a população no fundo dos altos muros. Dentro, a polícia abre espaço aos carregadores de negócios, enquanto uma espécie de exército espreita as ruas contra os alucinados jihadistas que pululam, convertidos, por toda a parte e que, a qualquer momento, são bem capazes de se explodir no meio de uma praça, gritando Alá é Grande! Estão enganados com as oferendas (femininas) do céu para onde caminham os bocados das almas estilhaçadas. Todos eles já deviam ter aprendido que não há deuses bons que oferecem afecto e mulheres meigas. Em todas as religiões a noção de pecado é maior ou menor mas milenar, com ameaças de castigos sem nome. Todas são assim e o Homem aprendeu a defender-se, não através do nem mas pela guerra e pelos genocídios.
A Europa desta ignóbil Globalização que estragou meio mundo, devia refazer-se com os seus parceiros, jogando pacificamente, sem choques, as bolas de um bilhar simbólico. As soberanias não são mitologias: são a História, a civilização e a cultura. Amarrá-las sobre o bilhar, sem liberdade e sem trocas amistosas, é apenas apressar o Apocalipse.

terça-feira, 31 de maio de 2016

AS INVENÇÕES DEMENCIAIS


                           
                                  as invenções demenciais todas juntas
A descoberta e desenvolvimento da televisão sugere uma revolução  com importantes  efeitos comportamentais e de cultura. A verdade é que muitas coisas mudaram nas comunidades e hoje a mundialização das redes permitem seguir notícias e relevantes acontecimentos em toda a parte do mundo. Mas o mundo é muito grande para que os homens da comunicação se ocupem dele como deveria ser, tanto mais que tudo o que de novo se faz, faz-se em geral para a conquista de poderes das mais diversas naturezas, nomeadamente em vias como a da economia, da finança, do poder. No início, os operadores e senhores da televisão pareciam achar graça a uma coisa de era potencialmente capaz de influir em campos profundos, das ciências às artes. Mas eles faziam sobretudo escolhas naif mais ou menos como as crianças com um brinquedo novo.





Tendo, na última década, atingido capacidade de chegar a todo o planeta, permitindo ver em todas as regiões ligadas às redes e satélites uma vastíssima variedade de acontecimentos e belas peças da nossa geografia, concertos e assembleias dirigidas a muitas populações, é caso para nos perguntarmos porque é que isso não acontece,  não se fez congregadamente? A chegada do homem à lua foi um dos factos históricos mais importantes da História, no século XX e,embora os meios, já avançados, não tivessem expansão actual, uma emissão conectada mostrou em simultâneo, na terra inteira, em tempo real esse assombroso minuto da primeira pégada de um homem  no nosso satélite lateral. Hoje é possível pesquisar e simular o espaço longínquo sem ter que viajar dispendiosamente no espaço.
E o que vemos concretamente? Vemos o uso falacioso e mercantilista  dessa riqueza da teconologia, no hábito de outros planos rotineiros, quer pela ideia de conquista de cada vez mais audiências, quer atraindo gigantescas quantidades de publicidade, num linha economicista e finançeira.
Por mais estranho que pareça, muitos programas são tão ingénuos e revisteiros como no início. O humor não se sofisticou nem inter-agiu como por vezes finge fazer. Entre nós, Portugal, o futebol é protegido como uma preciosa
comunidade alienígena: chega a acontecer não haver, nos canais base das várias estações e suas derivantes, um único espaço livre de futebol. Aliás, como acontece com a chuva de telenovelas ou programas de noticiário (sempre escasso) aquilo a que chamarei a cartelização da publicidade: tudo fica, ao mesmo tempo, tomado de publicidade, nem sequer muito criativa mas barulhenta, todoo espaço televisivo.
Sobre tudo isto haveria muito para dizer, mas como há «vigilâncias» que nos censuram a palavra e cortam o conteúdo, direi apenas que o mundo das telenovelas, podendo ser um meio culturalmente rico, está manietado por maneirismos impertinentes, como nas bandas sonoras, cantigas por tudo e por nada, o falso engenho de abrilhantar a imagem. Além do mais, uma novela como «Coração de Ouro», que ganhou amedalha de ouro e tem imagens de grande qualidade sobre os contextos do Porto e Douro, prende-se a um sinistro enredo de uma rapariga que,na melhor das hipóteses deve representar o Demo ou o que de pior, em inveja, arrogância, atitudes criminais, pode ter a pretensão de representar o homem no seu pior, horas e horas a fio.

Se ligássemos esta narrativa ao feitio dos nossos tutores na Europa, na Comissão, no Eurogrupo, experimentando comparar isso com a ideia  de  uma união de nações, sem regras fechadas nem mais muros em torno do déficit, não haveria espaço para reduzir um novo livro visando a redenção humana. Há quem diga que os Cavalos de Tróia, entrando na Europa aos milhares e preferindo a Alemanha, estão a recomeçar a História antiga. Daqui a um século, os cristãos, eventualmente, sem resgate e já sem fé, poderão ter que se sepultarem por esse Atlântico fora.

sábado, 30 de abril de 2016

UM MEDITERRÂNEO COMO SEPULTURA


                                      

Quem não sabe ler esta arquitectura, simbolicamente, como uma qualquer Babel da Europa, já cheia de gente em gritos contrários uns aos outros -- e por fora, ao alto, deste mesmo lugar em que a fotografámos, ainda não é senão um edifício por acabar, suportes em altura e à espera dos envolvimentos monumentais anunciando o futuro.
E quem não sabe olhar o mundo ao passar, lendo os jornais que misturam o medo com uma actualidade trágica, vagas humanas diversamente acossadas pelo horror de mortes bárbaras, anos e anos um velho território agora em ruínas, devassado pelos daesh radicais, e agora fugindo para o mar Mediterrâneo, centenas de milhares de pessoas, famílias, crianças, todos chantageados por quem lhes aponta as águas na ideia de uma passagem para o outro lado, para a Europa. Barcos de borracha para lotações de vinte pessoas e logo lotados por quarenta, deixando o dinheiro, vestindo falsos salva-vidas, chegando um dia a praias juncadas de cadáveres e doidos em passos de acaso, enquanto a marinha os ajuda a pisar a areia e a livrar-se do frio mortal. Esta história já tem milhões de seres um pouco por todo o lado, viajando a pé por caminhos impossíveis, morrendo os que não correram contra o mar, insistindo os mais novos com crianças aos ombros, todos pelo sonho de uma vida melhor e apesar dos embaraços que alguns países lhes colocam na frente. Eles querem, quase todos chegar à Alemanha. A Alemanha, que praticamente gere os tratados da Europa e sopra para a Comissão Europeia que vigie os países, que os retenha na austeridade, que os faça ajoelhar perante as famosas regras de tratados cada vez mais obsoletos.
Então, para que sítio querem ir? «Para A Alemanha, Suécia, Irlanda, Suiça»
Mas há outros lugares mornos, afectuosos a ocidente, da França à Espanha e a Portugal.
E os mártires respondem: «Não queremos nada disso, Nunca iremos para esses lugares. Queremos uma vida melhor».

                        


    



                                            MAR SALGADO, ESPELHO DOS MORTOS